22/06/2011
Encontro Estadual dos Trabalhadores da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil
Cerca de 150 trabalhadores do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal de todo o Estado, representando a base de nove sindicatos de Santa Catarina, participaram do Encontro Estadual dos Bancários da Caixa e do Banco do Brasil (BB), que pela primeira vez foi realizado em Chapecó, na sede do sindicato, no último sábado, dia 18 de junho.
A primeira mesa da manhã foi dedicada a uma análise de conjuntura, com a participação do professor da licenciatura em ciências sociais da UFFS – Universidade Federal da Fronteira Sul, Danilo Enrico Martuscelli.
Em suas considerações, Danilo Martuscelli falou sobre algumas características do Neoliberalismo, “política que defende os interesses do capital” e que segundo ele, tem como principais características “ser antipopular e antinacional”; suas consequências; e um possível caminho para a luta dos trabalhadores.
O professor destacou as contradições que começaram a surgir a partir do ano 2000, com a emergência de várias crises econômicas, onde surgiram manifestações contra a ALCA – Área de Livre Comércio da Américas, o FMI – Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial. Chamou a atenção para o surgimento de movimentos de resistência, movimentos antiglobalização e a construção do Fórum Social Mundial, em Porto Alegre.
Danilo Martuscelli argumentou que com o processo de “desgaste profundo do neoliberalismo”, começaram as tentativas de alteração da política estatal, que passaram a envolver não apenas os trabalhadores, mas também setores da burguesia, que passaram a ter certas resistências e reações frente a este sistema.
Depois, fez comentários sobre os dois mandatos do ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso. Segundo o professor, no primeiro mandato de FHC ocorreu o maior processo de privatização da história do país, onde o BNDES era voltado a financiar as privatizações.
Já no segundo mandato aconteceu uma desvalorização do real, surgindo uma pressão industrial por uma menor abertura comercial externa, aproximando assim a política dos empresários com movimentos dos trabalhadores, especialmente com a CUT e a Força Sindical.
Danilo Martuscelli ainda fez uma comparação entre os governos de FHC e Lula, que segundo ele a principal diferença é que o governo de Fernando Henrique vivia um “neoliberalismo extremado” e o de Lula variava entre “neoliberalismo moderado” ou “social-liberalismo”. “Não podemos colocá-los no mesmo saco, mais de formas diferentes ambos serviram ao capital, as grandes empresas e trabalharam políticas voltadas à acumulação de capital”.
Para ele é importante compreender que no modelo de desenvolvimento capitalista em nosso país existe uma disputa entre os setores do capital monopolista e não entre o capital e o trabalho.
O professor também fez uma dura critica as Parcerias Público-Privadas, que chamou de “câncer”. Citando dados do SIAFI - Sistema Nacional de Administração financeira do Governo Federal, apontou o crescimento da divida pública interna, dos juros da divida e o crescimento do capital estrangeiro no país. “Quem mais lucra com isso são os bancos estrangeiros e nacionais, os fundos de pensão e as grandes empresas”, argumentou.
Sobre o movimento dos trabalhadores, baseado em dados do DIEESE – Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos apontou que, desde 2000, houve um crescimento do movimento sindical e um aumento das greves mais ofensivas, que segundo ele, conquistaram melhores resultados por dois motivos: maior pressão dos trabalhadores e grande aumento do lucro da burguesia. ”Os Bancos aumentaram muito seus lucros, cresceu bastante o capital bancário nacional público e privado”.
Danilo Martuscelli também chamou à atenção sobre o protagonismo do grande capital nas eleições do Brasil e no financiamento de campanhas do ex-presidente Lula. Sobre a eleição da presidente Dilma, o professor afirmou que o “capital monopolista tomou de assalto eleições”.
O professor ainda apontou alguns desafios para os trabalhadores, como a superação da “fulanização da política”, que critica “nomes”, políticos, e não o sistema; a superação da “política do varejo”, onde os ganhos ficam vulneráveis a mudança de governo; a promoção de uma atualização do “anti-imperialismo” – de fora para dentro e de dentro para fora; formação de uma frente antimonopolista e o rompimento com a lógica do capital monopolista, associada ao surgimento da aristocracia do trabalho.
Danilo Martuscelli terminou sua intervenção afirmando que “nas eleições passadas nenhuma candidatura colocou em pauta o capital monopolista”, o que considerou muito preocupante.
Saúde
Logo em seguida a análise de conjuntura aconteceu uma palestra sobre condições de trabalho, saúde e assédio moral, ministrada pelo Auditor do Ministério do Trabalho, Paulo Roberto Cervo.
O auditor ressaltou que o setor bancário tem a obrigação de cumprir o que determina a lei, pois é um dos setores mais rentáveis do país. Cervo citou dados que apontam que o setor adoece 23% dos seus trabalhadores, o que caracteriza que “esse trabalho é ruim e traz um grave risco de lesão”.
Para ele os maiores problemas do setor bancário são as metas excessivas, o grande volume de trabalho, o excesso de jornada, a falta de pausas, a falta de reposição de trabalhadores adoecidos, o mobiliário inadequado dos caixas, que segundo ele “privilegiam os equipamentos e não as pessoas” e ainda, o assédio moral.
Segundo ele as consequências desses problemas são: ansiedade, depressão, fadiga, estresse, insônia, lesão nos tendões, competição entre colegas, clima organizacional ruim e a somatização geral do estresse.
Paulo Roberto Cervo informou que nas auditorias realizadas nos bancos várias infrações legais foram constatadas e foram objetos de lavratura de autos, principalmente no que diz respeito ao excesso de jornada, ao pouco tempo de pausa para o almoço e ao mobiliário inadequado.
Cervo também narrou que a partir de 2003 o governo começou a pressionar para que o MT não desse atenção aos problemas dos trabalhadores. “Fomos desmantelados e descaracterizados e estamos tontos até agora”, desabafou.
Para melhorar a atuação do Ministério do Trabalho, o auditor disse que é necessária a ajuda dos trabalhadores, que “podem desqualificar as auditorias, exigir e fazer pressão”. Segundo ele, “os órgão públicos não tem gestão, eles só atuam por pressão”. Ele orientou os trabalhadores para que “não busquem celeridade em órgão público, tem que ir empurrando senão, não vai”.
Pauta dos Trabalhadores
No período da tarde, o encontro foi divido em duas reuniões e os bancários discutiram pautas específicas de reivindicações dos empregados do BB e Caixa de Santa Catarina, que serão mandadas para o Congresso Nacional. Os principais temas debatidos foram condições de trabalho, saúde e previdência, terceirizações, assédio moral, salários, segurança e metas.
As pautas serão organizadas e sistematizadas para os representes de Santa Catarina que participarão do Congresso Nacional.
Moções
Durante o Encontro Estadual dos Bancários da Caixa e do Banco do Brasil (BB) também foram aprovadas três moções, uma de repúdio a discriminação e segregação dos trabalhadores do BESC; outra contra a demissão de um trabalhador de Florianópolis, acusado de denunciar o descumprimento da Lei da Fila, ao PROCON; e ainda, uma de apoio à greve dos professores.
Fonte: FETEC/SC - Texto Ricardo Casarini